Análise destaca ingredientes presentes com frequência em alimentos ultraprocessados e produtos de cuidados pessoais e mostra como escolher opções mais saudáveis
Yuka é um aplicativo que escaneia códigos de barras de alimentos, cosméticos e produtos de cuidados pessoais para avaliar seu impacto na saúde. A plataforma traduz informações complexas dos rótulos em avaliações simples e independentes, o que ajuda os consumidores a tomar decisões de compra mais conscientes. A partir de seu banco de dados, que já reúne mais de 700 mil produtos no Brasil e cresce desde o lançamento em julho, o aplicativo identificou as categorias de aditivos alimentares e ingredientes cosméticos mais frequentemente classificados como de alto risco.
A análise reúne algumas das substâncias mais comuns encontradas em produtos de uso cotidiano, de alimentos processados e bebidas a cosméticos e itens de cuidados pessoais. A análise desses ingredientes por categoria ajuda a dimensionar a presença de determinadas substâncias e explica por que seu uso e seus possíveis efeitos sobre a saúde têm recebido atenção crescente da comunidade científica e de órgãos reguladores.
Produtos ultraprocessados que dominam o mercado
Entre os aditivos alimentares que recebem com maior frequência a classificação de alto risco pela Yuka estão:
- Nitritos e nitratos, usados como conservantes em carnes processadas e embutidos.
- Corantes artificiais, como Vermelho 40, Amarelo 5 e Amarelo 6, encontrados em refrigerantes, doces, salgadinhos e cereais.
- Dióxido de titânio, usado para conferir coloração branca a doces, gomas de mascar e molhos.
- Adoçantes artificiais, como aspartame e sucralose, comuns em bebidas “light” e “zero”, além de produtos lácteos.
- Emulsificantes, encontrados em produtos lácteos, molhos, sorvetes e bebidas vegetais.
- Aditivos à base de fosfato, amplamente utilizados em refrigerantes, produtos de panificação, queijos processados e embutidos.
O tema ganha relevância no Brasil diante do aumento do consumo de alimentos ultraprocessados nas últimas duas décadas. O país também foi pioneiro na criação do sistema de classificação NOVA, que categoriza os alimentos de acordo com o grau e a extensão de seu processamento. Segundo pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), a participação dos ultraprocessados no consumo total de energia da população brasileira aumentou cerca de 36% entre 2002 e 2003 e 2017 e 2018.
As advertências frontais obrigatórias para produtos com alto teor de açúcar, sódio ou gordura saturada estão em vigor no Brasil desde 2022. A medida também cria um incentivo para que fabricantes reduzam a quantidade de açúcar nos produtos e uma das formas mais simples de fazer isso é substituí-lo por adoçantes não calóricos. No entanto, essa troca permite que um fabricante elimine a advertência de “alto em açúcar” ao substituir o açúcar por adoçantes considerados controversos, sem que essa alteração fique evidente na parte frontal da embalagem.
Por que esses aditivos alimentares são uma preocupação?
“Alguns aditivos alimentares têm uma função legítima: ajudam a garantir a segurança dos alimentos ou prolongar sua vida útil. Outros, porém, são usados principalmente para mascarar ingredientes de baixa qualidade, imitar texturas naturais ou estimular o consumo excessivo. Diversos desses aditivos foram objeto de pesquisas científicas que levantaram preocupações sobre diferentes efeitos adversos à saúde. Os consumidores não têm tempo para avaliar esses estudos enquanto percorrem os corredores de um supermercado. É nesse ponto que a Yuka atua como uma ferramenta simples para a saúde no dia a dia, ao traduzir informações científicas complexas em uma classificação clara e codificada por cores, que qualquer pessoa pode entender de imediato”, afirma Gabriela Mourad Vicenssuto, engenheira de alimentos brasileira da Yuka.
Nitritos e nitratos, por exemplo, podem gerar substâncias que diversas autoridades de saúde, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), consideram provavelmente cancerígenas. Os corantes artificiais, presentes na maioria dos produtos alimentícios, não têm valor nutricional e foram associados à hiperatividade e a problemas de atenção em crianças. Por esse motivo, a União Europeia exige uma advertência nos rótulos desde 2010.
O dióxido de titânio, por sua vez, deixou de ser considerado seguro pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos em 2021 e está proibido em alimentos na União Europeia desde 2022, embora continue permitido na maioria dos países, incluindo o Brasil.
O mesmo se aplica aos adoçantes artificiais, comercializados como uma alternativa saudável ao açúcar, mas associados a evidências cada vez mais preocupantes. O aspartame foi classificado pela OMS como possível carcinógeno e associado a um maior risco de diabetes tipo 2. As autoridades de saúde também não recomendam seu uso como estratégia de controle de peso.
Os aditivos à base de fosfato, encontrados em produtos de panificação, carnes processadas, produtos lácteos e, principalmente, refrigerantes, contribuem para uma ingestão de fósforo muito acima dos níveis recomendados. Esse consumo foi associado a danos renais, problemas ósseos e maior risco cardiovascular.
Ingredientes que mais preocupam em cosméticos
A lógica é semelhante para os produtos de cuidados pessoais. Entre os ingredientes que a Yuka classifica com frequência como de risco estão:
- Parabenos, suspeitos de interferir no sistema hormonal. O butilparabeno é classificado como disruptor endócrino na União Europeia, com efeitos documentados sobre hormônios, fertilidade e desenvolvimento fetal.
- Antioxidantes BHA e BHT, também associados a alterações hormonais. O BHA é classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) como possível carcinógeno.
- Silicones cíclicos. O D4 é um possível disruptor endócrino, com efeitos sobre o sistema reprodutivo feminino.
- Conservantes alergênicos, como a metilisotiazolinona, um potente agente alergênico que irrita a pele, os olhos e as vias respiratórias.
- Filtros UV, como benzofenona-3 (oxibenzona) e octocrileno, considerados possíveis disruptores hormonais e também associados a impactos sobre os recifes de coral.
- Sais de alumínio em antitranspirantes, utilizados diariamente e associados a possíveis efeitos reprodutivos e neurológicos, segundo a OMS.
- Substâncias PFAS, como PTFE e perfluorodecalina, associadas a alterações no sistema imunológico, redução da fertilidade e diferentes tipos de câncer, além de apresentarem alta persistência no meio ambiente.
Tanto para alimentos quanto para cosméticos, a Yuka utiliza a mesma escala de quatro cores: verde, sem risco identificado; amarelo, risco limitado; laranja, risco moderado; e vermelho, alto risco. Um ingrediente só recebe a classificação vermelha quando há evidências científicas sólidas de um efeito grave sobre a saúde e quando o nível de exposição é de fato preocupante, e não apenas por precaução.
Alternativas mais saudáveis
Quando um produto recebe uma avaliação baixa, a Yuka sugere alternativas com melhor classificação dentro da mesma categoria. Para alimentos, são produtos sem aditivos controversos e/ou com melhor perfil nutricional, como menor quantidade de açúcar ou sal e maior teor de proteínas ou fibras. Para cosméticos, são produtos formulados sem ingredientes classificados como potencialmente de risco.
“Isso reflete um princípio central da abordagem independente da Yuka: não queremos dizer aos consumidores o que comprar, mas oferecer as ferramentas e alternativas necessárias para que façam suas próprias escolhas”, afirma Julie Chapon, cofundadora da Yuka. “Acreditamos que a transparência permite que as pessoas tomem decisões mais conscientes ao mostrar que existe uma opção melhor em todas as categorias de produtos.”
Ao traduzir listas complexas de ingredientes em avaliações claras e independentes, a Yuka busca reduzir a distância entre o que os rótulos informam e o que os produtos realmente contêm. O objetivo é ajudar consumidores em todo o mundo a identificar com mais facilidade as opções mais seguras dentro de cada categoria.
Sobre a Yuka
Fundada em 2017, a Yuka é um projeto de impacto totalmente independente. O aplicativo permite que os usuários escaneiem códigos de barras de alimentos e produtos cosméticos para avaliar seu impacto na saúde, com o objetivo de ampliar a transparência sobre a composição dos produtos e ajudar os consumidores a tomar decisões melhores para sua saúde. Atualmente, o aplicativo tem mais de 85 milhões de usuários no mundo, incluindo 28 milhões nos Estados Unidos.
Saiba mais em: https://yuka.io/en/
